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Exegese do evangelho de Lucas Capítulo 18 Versículos de 35 até 43

Exegese

1. Contexto Literário e Geográfico

  • A Jornada para Jerusalém: Esta passagem ocorre no final da grande “Narrativa de Viagem” de Lucas (9,51 – 19,27). Jesus está prestes a entrar em Jerusalém para a Paixão.
  • Contraste Imediato: Nos versículos anteriores (18,31-34), Jesus profetiza Sua morte e ressurreição pela terceira vez, mas Lucas diz que os discípulos “nada compreenderam”. Ou seja, os discípulos (que enxergam fisicamente) estão sofrendo de cegueira espiritual. Imediatamente depois, Lucas coloca a cura de um cego físico que “enxerga” quem Jesus é. É uma ironia literária intencional.
  • Jericó: Era uma cidade rica e importante no caminho para Jerusalém. O contraste entre a riqueza da cidade e a pobreza do cego à beira do caminho é marcante.

2. Análise Versículo por Versículo

Vv. 35-37: A Situação do Cego

“Aconteceu que, ao aproximar-se ele de Jericó, estava um cego assentado junto do caminho, mendigando.”

  • O “Cego”: Marcos o chama de Bartimeu, mas Lucas o deixa anônimo. Isso permite que o leitor se coloque no lugar dele. Na teologia lucana, o cego representa o “outsider”, o marginalizado, o pobre que depende totalmente da misericórdia alheia (mendigando).
  • “Jesus Nazareno”: A multidão informa o cego usando o título geográfico/humano de Jesus (“o homem de Nazaré”). Eles veem o profeta, mas não veem o Messias.

Vv. 38-39: A Confissão Messiânica e a Resistência

“E clamou, dizendo: Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim.”

  • Filho de Davi (Huios Dauid): Esta é a chave cristológica do texto. O cego não usa o título que a multidão lhe deu (“Nazareno”). Ele usa um título real e messiânico. Ele “vê” a realeza de Jesus antes de recuperar a visão física. Ele reconhece Jesus como o Messias prometido que viria restaurar Israel.
  • Tem Misericórdia (Eleēson): É o pedido de Kyrie Eleison. Não é um pedido por dinheiro, mas por hesed (amor leal, graça imerecida).
  • A Repreensão da Multidão: A multidão tenta silenciá-lo. Isso reflete a barreira social: o Messias (na visão deles) não deveria ser incomodado por “lixo social”. O cego precisa superar não só sua deficiência, mas a hostilidade da comunidade religiosa/social.

Vv. 40-41: O Encontro e a Pergunta Fundamental

“Parou Jesus e mandou que lho trouxessem… Que queres que eu te faça?”

  • Jesus Para: O verbo indica uma interrupção divina na caminhada para a cruz. O clamor do pobre para Deus.
  • A Pergunta:“O que queres que eu te faça?”
    • Jesus devolve a dignidade ao homem. Ele não o trata como um objeto de caridade, mas como um sujeito com desejos. Ele força o homem a articular sua fé e sua esperança.
  • A Resposta: “Senhor, que eu veja.” (No grego: Kyrie, hina anablepsō). O uso de “Senhor” (Kyrios) aqui já indica uma submissão divina, não apenas um tratamento formal. Anablepsō significa “ver novamente” ou “olhar para cima”.

Vv. 42-43: O Milagre e o Discipulado

“E Jesus lhe disse: Vê; a tua fé te salvou.”

  • O Verbo “Salvar” (Sōzō): No grego, a palavra para “curar” e “salvar” é a mesma (sōzō). Lucas adora esse duplo sentido. O homem foi curado fisicamente, mas a frase “tua fé te salvou” indica uma restauração completa (corpo e alma).
  • O Meio: A “fé” (pistis) é o canal. Não é uma obra mágica, mas a confiança total na autoridade de Jesus.

“E logo viu, e seguia-o, glorificando a Deus…”

  • Discipulado Instantâneo: Diferente de outros curados que voltam para casa, este homem passa a segui-Lo (akoloutheō). Este é o termo técnico para “ser discípulo”. Ele se junta à procissão que vai para Jerusalém (para a Cruz).
  • Aclamação Pública: O homem se torna uma testemunha. A multidão, que antes o repreendia, agora também “dá louvores a Deus”. A cura de um marginalizado converte o olhar da comunidade.

3. Síntese Teológica

  1. A Cegueira Paradoxal: Lucas está nos dizendo que é possível ter olhos perfeitos e ser cego (como os fariseus e até os discípulos naquele momento), e é possível ser cego fisicamente e ter uma visão espiritual perfeita (como o mendigo que vê o “Filho de Davi”).
  2. A Oração Perseverante: O texto é um modelo de oração (tema recorrente em Lucas 18, vide a parábola da viúva persistente no início do capítulo). A oração verdadeira supera os obstáculos sociais e o desânimo.
  3. A Salvação dos Excluídos: Jesus para sua jornada messiânica para atender um mendigo. Isso define o Reino de Deus: um Reino onde os últimos são os primeiros a receber a atenção do Rei.
  4. Do Pedido ao Seguimento: O milagre não é um fim em si mesmo. O objetivo da visão restaurada é o discipulado. Ele passa a enxergar para poder seguir Jesus no caminho da cruz.

Espero que esta exegese ajude a aprofundar ainda mais sua compreensão deste texto riquíssimo!

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