PENITÊNCIA COM OS SANTOS
PENITÊNCIA COM OS SANTOS
VOLUME 1 — SANTA TERESA D’ÁVILA
CAPÍTULO 3 – O DESAPEGO
QUANDO POSSUIR MENOS NOS TORNA MAIS LIVRES
Nem tudo o que nos prende pode ser colocado dentro de uma carteira
Quando falamos em desapego, muitas pessoas pensam imediatamente em dinheiro, bens materiais ou pobreza.
Mas o desapego cristão vai muito além.
Podemos possuir pouco e ainda assim ser profundamente apegados.
Apegados à própria opinião.
À aprovação dos outros.
À rotina.
Ao conforto.
À imagem que construímos.
Ao reconhecimento.
À segurança.
Àquilo que planejamos.
Às pessoas.
Até mesmo à ideia de que tudo precisa permanecer como está.
Santa Teresa d’Ávila compreendeu algo essencial:
o coração precisa estar livre para pertencer verdadeiramente a Deus.
E essa liberdade exige desapego.
O QUE É DESAPEGO?
Desapego não significa desprezar aquilo que possuímos.
Não significa abandonar responsabilidades.
Não significa deixar de amar.
Também não significa viver sem projetos, desejos ou relações.
Desapego significa outra coisa:
possuir sem ser possuído.
É utilizar as coisas sem permitir que elas governem o coração.
É amar pessoas sem transformá-las em ídolos.
É apreciar conforto sem fazer dele uma necessidade absoluta.
É receber elogios sem depender deles.
É fazer planos sem acreditar que Deus deve obrigatoriamente obedecer aos nossos planos.
Essa é uma forma profunda de liberdade.
JESUS E A LIBERDADE DO CORAÇÃO
Jesus ensinou:
“Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.”
— Mateus 6,21
Essa frase é um poderoso exame de consciência.
Porque nosso tesouro não é apenas aquilo que guardamos no banco.
Nosso tesouro pode ser aquilo que domina nossos pensamentos.
Aquilo que temos medo de perder.
Aquilo sem o qual acreditamos não conseguir viver.
Aquilo que, quando ameaçado, tira imediatamente nossa paz.
Por isso vale perguntar:
Onde está meu coração?
APEGOS QUE NÃO CONSEGUIMOS VER
Alguns apegos são fáceis de perceber.
Outros permanecem escondidos.
Podemos estar apegados:
ao dinheiro;
à aparência;
à posição social;
ao trabalho;
à nossa reputação;
ao celular;
a uma rotina;
ao conforto;
à atenção de determinada pessoa;
ao número de curtidas;
à necessidade de sermos lembrados;
à vontade de controlar;
à opinião que os outros têm sobre nós.
Esses apegos não são necessariamente pecados em si.
O problema surge quando passam a controlar nossa paz.
COMO DESCOBRIR UM APEGO?
Existe um teste simples.
Observe aquilo que acontece quando alguma coisa nos é retirada.
Quando perdemos o controle.
Quando alguém nos critica.
Quando um plano muda.
Quando não recebemos reconhecimento.
Quando não podemos comprar algo.
Quando alguém não responde.
Quando somos esquecidos.
Quando outra pessoa recebe aquilo que esperávamos receber.
A reação interior pode revelar muita coisa.
Às vezes acreditamos que somos desapegados até o momento em que alguma coisa toca justamente aquilo que não queremos perder.
SANTA TERESA E A LIBERDADE PARA AMAR
Na espiritualidade teresiana, desapego não é vazio.
É espaço.
Quando o coração deixa de estar excessivamente preso a coisas, pessoas, expectativas e opiniões, ganha espaço para amar melhor.
Isso é importante.
Porque apego e amor não são a mesma coisa.
O amor deseja o bem.
O apego frequentemente deseja possuir.
O amor sabe respeitar.
O apego quer controlar.
O amor sabe esperar.
O apego exige.
O amor permanece livre.
Por isso, desapegar-se não significa amar menos.
Muitas vezes significa aprender a amar melhor.
PENITÊNCIA E BENS MATERIAIS
Uma forma concreta de penitência é aprender a utilizar os bens sem permitir que eles dominem o coração.
Podemos perguntar:
Preciso realmente comprar isso?
Estou comprando porque preciso ou porque quero preencher alguma inquietação?
Tenho coisas que poderiam servir melhor a outra pessoa?
Consigo renunciar a uma compra e usar parte desse dinheiro para ajudar alguém?
Esse tipo de pergunta transforma consumo em discernimento espiritual.
Às vezes, não comprar é uma penitência.
Às vezes, doar é uma penitência.
Às vezes, compartilhar é uma penitência.
E às vezes a maior penitência é simplesmente perceber que já temos o suficiente.
O DESAPEGO NO MUNDO DIGITAL
Existe hoje uma forma de apego que Santa Teresa não conheceu, mas provavelmente compreenderia muito bem:
a necessidade permanente de conexão.
Quantas vezes pegamos o celular sem qualquer necessidade?
Quantas vezes abrimos uma rede social apenas por hábito?
Quantas vezes ficamos inquietos quando ninguém responde?
Quantas vezes nossa paz depende da atenção digital?
Nesse contexto, o desapego pode tomar uma forma bastante simples:
desligar notificações por algum tempo;
deixar o celular fora do quarto durante a oração;
passar algumas horas sem redes sociais;
não conferir repetidamente números de visualizações;
resistir à necessidade de responder imediatamente.
A penitência não está no aparelho.
Está em recuperar a liberdade.
DESAPEGO DAS PESSOAS
Esse talvez seja um dos temas mais delicados.
Amar alguém profundamente não é errado.
Mas podemos transformar amor em dependência.
Podemos exigir que alguém corresponda exatamente como desejamos.
Podemos tentar controlar.
Podemos sentir que nossa vida perde todo o sentido se determinada pessoa não agir como esperamos.
O desapego cristão não manda parar de amar.
Ele ensina:
amar sem possuir.
Isso significa reconhecer que nenhuma pessoa pode ocupar o lugar que pertence somente a Deus.
DESAPEGO DOS PRÓPRIOS PLANOS
Talvez você tenha planejado algo durante meses.
E não aconteceu.
Talvez tenha desejado uma oportunidade.
Ela não veio.
Talvez esperasse uma resposta.
Foi diferente.
Essa experiência pode gerar frustração.
Mas também pode abrir uma pergunta espiritual:
Consigo continuar confiando quando Deus permite um caminho diferente daquele que imaginei?
O desapego alcança seu ponto mais profundo quando conseguimos dizer:
“Senhor, eu tinha um plano. Mas quero aprender a confiar também no vosso.”
DESAPEGO NÃO É IRRESPONSABILIDADE
É importante não confundir desapego com negligência.
Desapegar-se não significa:
deixar de trabalhar;
abandonar a família;
não cuidar dos próprios bens;
não planejar o futuro;
ignorar compromissos;
ser indiferente às pessoas.
O verdadeiro desapego torna a pessoa mais livre para cumprir suas responsabilidades.
Ela utiliza os bens.
Mas os bens não governam sua vida.
PRATIQUE COM SANTA TERESA
PENITÊNCIA DESTE CAPÍTULO
Escolha uma coisa à qual você percebe algum apego.
Pode ser:
um alimento;
uma compra;
uma rede social;
um objeto;
uma comodidade;
um hábito;
uma necessidade de reconhecimento.
Durante um dia ou algumas horas, renuncie voluntariamente a isso.
Não para provar força.
Mas para observar o que acontece dentro de você.
Se surgir irritação, ansiedade ou dificuldade, não se condene.
Apenas observe.
E faça esta oração:
“Senhor, ensinai-me a usar todas as coisas sem permitir que nenhuma delas ocupe o lugar que pertence a vós.”
ORAÇÃO
Senhor,
dai-me um coração livre.
Muitas vezes me apego às coisas,
às pessoas,
às opiniões,
aos planos,
ao conforto,
ao reconhecimento.
E quando aquilo que desejo me é tirado,
perco facilmente a paz.
Pela intercessão de Santa Teresa de Jesus,
ensinai-me o verdadeiro desapego.
Que eu saiba possuir sem ser possuído.
Amar sem controlar.
Planejar sem transformar meus planos em ídolos.
Receber sem me tornar dependente.
Perder sem perder a fé.
Dai-me um coração leve,
capaz de vos escolher acima de todas as coisas.
Santa Teresa de Jesus,
mestra do desapego e da oração,
rogai por nós.
Amém.
PARA GUARDAR NO CORAÇÃO
Desapego não significa não possuir nada.
Significa não permitir que nada possua o coração.
Podemos ter bens.
Podemos amar pessoas.
Podemos fazer planos.
Podemos desejar coisas boas.
Mas tudo precisa permanecer no lugar certo.
Porque o coração que se apega demais perde liberdade.
E o coração que aprende a entregar começa a descobrir uma paz que nenhuma posse pode comprar.
NO PRÓXIMO CAPÍTULO
CAPÍTULO 4 — SILÊNCIO PARA ENCONTRAR DEUS
QUANDO O BARULHO DIMINUI, O CORAÇÃO COMEÇA A ESCUTAR
Por VOZ NO DESERTO
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